Fumito Ueda é uma das mentes que mais admiro na indústria dos videojogos. As suas obras são singulares, diria únicas. ICO é muito bom e Shadow Of The Colossus é um dos jogos que mais gostei de jogar na minha vida.

Está no meu top 5, juntamente com The Legend Of Zelda: Ocarina of Time, Super Mario 64, Shenmue e GTA III.

A forma como Fumito conta as suas histórias, sempre repletas de mistério e misticismo, representadas visualmente e sonoramente de forma soberba, conseguem criar em mim as mais incríveis emoções.

Por isso, quando o homem anuncia um novo projeto, fico, obviamente, ansioso e à espera de uma experiência à parte no mundo dos videojogos.

Quando The Last Guardian foi anunciado, o sucessor espiritual de Shadow Of The Colossus, fiquei bastante feliz. Fumito vinha a subir a fasquia. ICO era muito bom, SOTC incrível. O próximo jogo só poderia ser estratosférico.

Claro que quando se criam demasiadas expectativas, a desilusão pode ser proporcional. A situação só piora, quando passa demasiado tempo após o anúncio de um projeto e o seu término.

The Last Guardian tinha muitas provas para superar. Que raio andou Fumito e a sua equipa a fazer durante tantos anos (o jogo foi anunciado em 2009). O que é que vinha aí?
Agora que conheci Trico, a criatura alada mais querida de sempre, penso que percebo um pouco porque razão demorou tanto tempo The last Guardian a sair.

Em primeiro lugar, é um jogo de Fumito Ueda. Quem conhecer ICO e SOTC , nota perfeitamente que TLG saiu da mesma mente. Seja na jogabilidade propositamente desajeitada e esquisita, na direção de arte escolhida ou na forma como a história é contada.

Em segundo lugar, TLG não me desiludiu. Em alguns momentos supera, inclusive, toda a expectativa que criei.

É um jogo com um ritmo muito próprio, que pediu muito de mim. Pediu paciência, acima de tudo. Admiravelmente, pediu uma paciência muito similar à paciência que tenho que ter com os meus animais de estimação. Não foram poucas vezes que via em Trico os mesmos comportamentos que vejo na minha cadela. A enorme criatura é uma criação fascinante de se observar. Uma maravilha digital, embora não perfeita, incrivelmente realista. A forma como Trico reage e interage connosco e com o meio que o rodeia é simplesmente fascinante.

Claro que criar uma IA capaz de reagir a comandos e a cenários repletos de escadas, abismos, árvores, grutas e obstáculos não é fácil. Suspeito que isto tenha sido um dos principais problemas que Fumito enfrentou no desenvolvimento do jogo. As variáveis a considerar são muitas e a probabilidade de ocorrerem bugs e comportamentos estranhos, é bastante alta.

Convém não esquecer que tudo ocorre em tempo real. Trico responde às nossas indicações. Trico caminha sozinho sem ajuda. Trico desvia-se de uma árvore. Trico observa os pássaros ao longe. Trico vem ter brincar connosco. Trico tem cuidado para não nos pisar. Trico procura caminhos alternativos. Tudo em tempo real. É um fascínio ver o que Fumito e a sua equipa criou. E, quando tudo corre bem, (diria que quase sempre corre bem), Trico parece real. É como o nosso animal de estimação digital gigante.

Fumito foi até mais longe e programou Trico com vontade própria. No início do jogo é bem mais difícil fazer com que Trico nos obedeça. Ou ele simplesmente não quer ir para onde o mandámos, ou então distrai-se com imensa facilidade com pássaros ou outras coisas. É uma criatura. Tal e qual como a minha cadela ás vezes só faz o que eu mando com muita insistência, Trico só segue em frente após termos insistido de igual forma.

E foi assim, através de muito ensino (e aprendizagem também), que fui criando uma ligação emocional com um bicho digital. Para reforçar essa ligação emocional, foram acrescentados inimigos e perigos diversos. Eu salvei a vida de Trico e Trico salvou a minha. Eramos dois estranhos no início do jogo, mas no final dois companheiros. Dois amigos. Era uma espécie de amor digital. Um sentimento parecido ao que tenho pelos meus animais de estimação. Eu sei que eles estão comigo, seja em que circunstância for. Como Trico estaria.

Não é fácil criar esse tipo de ligações fortes num videojogo. Mas Fumito, de certa forma, conseguiu.
E aplaudo-o por isso.

Tecnicamente, TLG é muito bom. É lindo de se ver. As cutscenes (e são muito poucas) são magistrais. Muito bem dirigidas ( Fumito já o tinha feito em SOTC), sem pressa de se mostrarem, com os ângulos certos, dramatismo correcto. A história sai a conta gotas, mas quando surge uma cutscene ficamos suspensos e colados ao ecrã.

A música é épica e linda. Utilizada também ela nos momentos certos. Sabia, antecipadamente, que algo de especial ia acontecer porque surgia uma melodia, sem pressa, no meio da jogatina, no momento certo. Sim, porque a maior parte do jogo ocorre em silêncio. Só se ouve Trico, nós e o ambiente que nos rodeia.
Quando tudo é harmonioso em TLG, a experiência é fantástica.

Agora, TLG não é perfeito. A jogabilidade poderia ser melhor. Eu sei que o facto de nós parecermos que estamos bêbedos a andar, a tropeçar em tudo que é sítio e a hesitar em dar saltos e depois nãos os dar correctamente é, de certa forma, propositado. Já Wander em SOTC tinha o mesmo estilo desastrado. Mas penso que em TLG foi ultrapassada um pouco a linha que separava a aceitação desse estilo característico, da frustração.

A câmara também tem muitos problemas, fixando-se em pontos que não interessam e não deixando ver o que está a acontecer demasiadas vezes. Senti, também, alguma repetição e linearidade no jogo. O facto de ser um jogo fechado, em que a maior parte do tempo, percorremos corredores e divisões, tentando sempre descobrir como sair dessas mesma divisões, fez com que me sentisse pouco desafiado e consequentemente recompensado.

Acho, contudo, que os pontos positivos deste jogo superam os pontos negativos. A frustração que senti em alguns momentos, eram facilmente esquecidos quando admirava Trico e avançava na minha jornada. Na nossa jornada, digo.

Continuo a achar que SOTC é a obra prima de Fumito Ueda. Mas SOTC apanhou-me desprevenido – aquele final de jogo é, facilmente, um dos melhores da história dos videojogos. E não o é apenas por ser emocionalmente devastador, mas porque dá uma perspetiva totalmente diferente das nossas ações enquanto jogadores – e TLG não. Estava à espera do melhor, desta vez.

Talvez seja mais pessoal que outra coisa. Talvez esteja a comparar TLG com SOTC. Mas como não o fazer, quando acho SOTC um dos melhores jogos já feitos? Eu percebo que Fumito tenha criado uma experiência diferente e optado por um ambiente mais fechado e intimista (isso também ajuda a estabelecer uma ligação emocional entre as personagens do jogo), mas senti demasiada falta de um mundo enorme à espera de ser explorado por mim.

Passei horas incontáveis com Agro a cavalgar pelas terras proibidas. O que será que existe para lá daquelas montanhas? Como será o próximo colosso? Belas memórias…

Mas, será que valeu a pena esperar tantos anos por TLG? Claro que sim! É mais uma experiência emocionante, intensa, fascinante e única. Adorei deixar-me envolver pelo ambiente e especialmente interagir com Trico. Será um jogo que irei lembrar durante muitos anos.

Espero, sinceramente, que Fumito Ueda continue a acreditar em si e nas suas criações. Os seus jogos fazem falta e são necessários.

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