Junta–te a Mr Robot

Mr Robot

Senhor Robô? O que é isto? Uma série sobre robôs? Deve ser. A julgar pelo nome deve ser.

Não é!

Ainda bem que só agora decidi ver a série, pois ver os episódios seguidos, sem esperar uma semana, tem as suas vantagens. Nada de ansiedades, nem nenhuma vontade em espancar alguém por termos de esperar dias para saber o que raio está a acontecer e como raio tudo vai acabar.

Como estava a dizer, Mr. Robot não tem nada a ver com robôs. Mas tem tudo a ver com pessoas e as suas relações com o mundo capitalistas que as controla.

Sim, é mais uma viagem através da dormência que a sociedade enfrenta nos dias de hoje, quando parece que ninguém tem a coragem de perceber que celebramos pessoas que lucram com a exploração de pessoas e que todos ajudamos a cimentar este desnível de valores com aquilo que compramos, que dizemos e discutimos nas redes sociais e que fingimos gostar com um like.

“O mundo é um grande embuste”, diz Elliot. Ele sabe isso. Tu sabes isso. No fundo, todos nós sabemos. “E é doloroso não o fingir, porque somos cobardes”, conclui.

Elliot parece também fingir, vivendo numa ilusão totalmente mundana com o seu trabalho numa empresa de segurança informática e as suas consultas com uma psicóloga e o seu apartamento mediano num bairro de Nova Iorque.

Ilusão que contrasta com a solidão que sente e que o consome com doses de morfina e choros desamparados, encostado ás paredes na escuridão do seu quarto; ilusão que choca com a sua aparente loucura e ansiedade social que o faz ser hacker em casa, entrando na privacidade das pessoas, invadindo as suas redes sociais e endereços de e-mail em busca do pior delas; iIlusão que o faz viver isolado, no seu mundo, incapaz de lidar com a morte do seu pai e de estabelecer uma relação mais afetuosa com quem lhe é próximo.

Até ao dia em que Elliot conhece Mr. Robot. Um homem que o recruta, após ter demonstrado todas as suas habilidades como hacker, para uma sociedade digital secreta, a FSociety.

O objetivo dessa sociedade é simples: apagar todos os registos das dívidas das pessoas e terminar com a influência do maior mal do mundo na sociedade, o dinheiro. A sociedade entrará num descontrolo total, mas terá que se reorganizar e as maiores corporações deixarão de governar.

Finalmente, os 99% irão subjugar o 1%. E Elliot será o responsável por tal revolução.

A inspiração em Fight Club e no grupo hacker Anonymous são por demais evidentes, mas isso não torna Mr. Robot uma cópia barata e sem chama. Muito pelo contrário.

Existem bastantes conceitos geek espalhados na série, mas não estragam a experiência. No entanto, não deixa de ser delicioso, para quem está dentro da coisa, apanhar diálogos acerca do Gnome VS KDE, ou ler os títulos dos episódios ou ainda assistir à utilização (inteligentíssima e adequada, diga-se de passagem) de termos utilizados na computação para aplicá-los na vida das pessoas e nas suas relações.

Mr. Robot não deixa de ser um ensaio sobre a dimensão humana numa época digital oca. Um ótimo ensaio.

Concordando-se ou não, Elliot e Mr. Robot, quer sejam herói ou vilão, acreditam que os demónios que habitam na mente das pessoas estão mais vivos do que nunca, controlados pela ganância e abafados pela cobardia e que é preciso uma mudança.

E que, talvez quando ocorrer essa mudança, cada uma delas se sinta menos sozinha, assim como Elliot.

Autor: Ricardo JM Vieira

Tenho a mania das artes e acho que o sentido de humor é das melhores coisas inventadas pela humanidade. Eu, pelo menos, gostava de ter.

1 thought on “Junta–te a Mr Robot”

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