A era digital acabou com as velhas caixas de cartão

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A era digital acabou com as caixas repletas de álbuns de fotografia e com os arquivos repletos de documentos. Mas será isso bom?

Para quem nasceu antes do computador pessoal se tornar popular, provavelmente terá em casa dezenas e dezenas de arquivos. Talvez guardados em caixas de cartão num canto do sótão.

Eu sou uma dessas pessoas. Para além das caixas das memórias familiares, tenho também o meu caixote gigante pessoal, com cadernos de apontamentos cheios de rabiscos, poemas embaraçosos e aquela caricatura que me parecia ser uma obra de arte. É um trambolho, que ocupa algum espaço. Mas sempre que vou até ele, para além dos habituais espirros por causa do pó acumulado, viajo até uma época bonita da minha vida.

Pedaços de tempo que podemos tocar

Album

Um rabisco é capaz de me fazer ficar nostálgico, pois recordo-me do dia em que o fiz. Das amizades que tinha, e do que sentia naquela altura.

Algumas dessas memória começam a perder cor. A ficar amareladas, borratadas, as frases a desvanecerem-se. É o tempo a fazer da suas. A apagar aos poucos aqueles registos.

Com a era digital isso foi acabando aos poucos. Agora já não são necessários dezenas de álbuns para guardar as fotografias, nem arquivos para colocarmos documentos importantes. Fica tudo no nosso computador pessoal, no smartphone, na pendrive, no cartão de memória ou no disco externo.

São objetos pequenos, que conseguem armazenar anos e anos da nossa vida. Quantos rolos de 36 fotografias não cabem num disco externo? Ou nos cartões minúsculos do nosso smartphone? E quando não temos esses dispositivos, basta escolher um dos vários serviços cloud disponíveis, para guardamos os nossos dados. Já são poucas as fotografias ou documentos que optamos por ter fisicamente.

Mas não estaremos a comprometer as memórias do nosso passado?

Vint Cerf, o vice presidente da Google e um dos fundadores da Internet, declarou recentemente que está preocupado com uma eventual «Idade Das Trevas Digital». Um futuro em que os nossos arquivos serão incapazes de serem reconhecidos e, consequentemente, ficarão perdidos para sempre.

Olha, mais um profeta do apocalipse

Vint Cerf

Calma. Isto não significa que amanhã vamos deixar de conseguir abrir as nossas fotografias. Mas estamos a falar de um dos inventores da Internet como a conhecemos. Por isso vale a pena pensar um bocadinho no que Cerf disse numa entrevista à BBC.

A nossa vida, as nossa memórias, as nossas mais queridas fotografias de família, existem cada vez mais como bits de informação, seja nos nossos discos ou na cloud. Mas, à medida que a tecnologia avança, existe o risco de elas ficarem perdidas numa eventual revolução digital.

Eu preocupo-me imenso com isso. Tu e eu estamos a experienciar algo assim. Formatos velhos de documentos que críamos, ou apresentações, podem não ser lidos pela versão mais atual do software, pois a compatibilidade não está sempre garantida.

Isto é verdade. Existem formatos de há alguns anos atrás, que já não são mais reconhecidos. Tenho aqui velhos cd’s com ficheiros que já não são compatíveis com o sistema operativo que utilizo.

O que pode acontecer ao longo do tempo é que, apesar de termos acumulado vastos arquivos de conteúdo digital, podemos na verdade nem saber o que são.

Pode parecer um bocado absurdo, mas convém lembrar que estão sempre a surgir novos formatos e empresas. Quem me garante que daqui a 50 anos, vou conseguir abrir a minha imagem em JPG? Quem me garante que daqui a 10 anos, o Dropbox ainda existirá?

Não existe o problema das coisas amarelecidas pelo tempo, pois elas simplesmente desaparecem!

O esquecimento no meio do caos digital

Digital Memory

Para além do mais, com tanta facilidade, é normal acumularmos milhares de ficheiros. Há uns anos atrás, éramos mais seletivos com aquilo que guardávamos. Agora é normal tirarem-se centenas de fotografias num jantar de amigos, que por vezes ficam esquecidas numa pasta qualquer, para nunca mais serem vistas.

A tecnologia é uma mais valia. É incrível como podemos capturar aquele momentos perfeito e vê-lo segundos depois. Maravilhoso como podemos organizar os nossos documentos sem ocupar caixotes.

Mas é preciso ter em conta que os ficheiros digitais, em vez de ficarem amarelecidos, correm o risco de ficarem esquecidos ou obsoletos.

E depois, nada substitui o prazer de folhear um álbum de fotografias. O toque é um dos estímulos mais poderosos que temos e é muito diferente clicar num rato para ver o próximo ficheiro, ou virar a folha, mesmo que amarrotada, de um velho caderno nosso de apontamentos.

Autor: Ricardo JM Vieira

Tenho a mania das artes e acho que o sentido de humor é das melhores coisas inventadas pela humanidade. Eu, pelo menos, gostava de ter.

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