Ébola, um assassino silencioso à solta

Cellou Binani/AFP/Getty Images
Um médico a equipar-se devidamente.foto: Cellou Binani/AFP/Getty Images

Desde que li Ameaça Invisível (Virus Outbreak) de Ian Probert na minha adolescência, que a palavra Ébola me provoca arrepios.

No livro, é contada a história de um surto de um vírus, desconhecido na altura, que dizimou centenas de macacos numa unidade de Quarentena em Reston.

Enquanto este assassino silencioso ia reclamando vítima após vítima, os investigadores descobriram que era um parente do Ébola do Zaire. A sorte, é que era inofensivo para os humanos.

Caso não fosse, muito provavelmente, Reston teria sido o início de um contágio de um vírus, com taxa de mortalidade acima dos 50% e sem vacina disponível.

Mas o que é o Ébola?

O Ébola é um filovírus de nível 4, que foi identificado pela primeira vez na região do Ébola, no Zaire em 1976.

Os filovírus são particularmente mortais para os seres humanos (taxas de mortalidade entre os 50% e os 90%) e deles fazem parte as diferentes estirpes do Ébola e o Marburg.

Desde 1976, que têm aparecido pequenos focos da doença na África Central. Apesar de ser um vírus extremamente perigoso e mortal, os focos têm sido sempre relativamente pequenos e controlados.

Imagem do vírus ao microscópio.
Imagem do vírus ao microscópio.

No entanto, é a primeira vez que o Ébola aparece fora da África Central, mais concretamente na parte ocidental do continente. E é a primeira vez que ultrapassa mais que 1000 casos identificados.

O Ébola propaga-se através dos humanos por contacto direto com fluídos corporais, sejam eles sangue, esperma ou saliva. Um homem que sobreviva ao vírus, pode transmiti-lo por via sexual por cerca de dois meses.

Até começar a exibir os sintomas – febres abruptas, dores de cabeça, diarreia, dores abdominais e musculares – podem passar-se 8 a 10 dias. Estes sintomas são iniciais e podem ser facilmente confundidos com outras doenças.

Os que vêm a seguir, e que geralmente levam à morte, é que mostram a verdadeira natureza assassina do Ébola.

Depois do estágio inicial, o portador começa a ficar com os olhos avermelhados e a vomitar ou a tossir sangue. Neste estágio, as probabilidades de sobrevivência descem a pique.

Um especialista a trabalhar no vírus.foto: Seyllou/AFP/Getty Images
Um especialista a trabalhar no vírus.foto: Seyllou/AFP/Getty Images

Em alguns casos, as vítimas podem começar a sangrar pelos poros da pele ou por outras zonas (olhos, boca, nariz, zonas genitais,etc). Depois de alguns dias de tortura, os órgãos internos começam a deixar de funcionar e o portador morre.

Isto tudo é extremamente doloroso, terrível de se ver e ocorre rapidamente.

Em poucos dias, o Ébola conclui a sua “programação genética”: replicar-se a si mesmo dentro de um hospedeiro, até este se tornar em milhões de cópias de si mesmo.

De onde veio o Ébola e o que se pode fazer para o combater?

O primeiro caso registado ocorreu em 26 de Agosto de 1976, na Republica Democrática do Congo (anteriormente o Zaire), mais concretamente, numa pequena cidade chamada Yambuku, a cerca de 100 km do Rio Ebola.

O primeiro diagnóstico que fizeram a Mabalo Lokela, o paciente zero, foi Malária. Mas a 5 de Setembro, Lokela começou a sangrar por todos os poros da pele e 3 dias depois morreu.

O diagnóstico estava errado. Yambuku estava perante um surto de um vírus mortal, pela primeira vez identificado em seres humanos.

Um centro  de isolamento para pessoas infetadas, em Conakry. foto: Cellou Binani/AFP/Getty Images
Centro de isolamento, em Conakry. foto: Cellou Binani/AFP/Getty Images

No final desse surto, foram identificados 318 casos, dos quais 280 terminaram em morte. O Ébola tinha feito a sua “apresentação” – ficou conhecido como Ébola do Zaire – matando 88% das suas vítimas.

Julga-se que os morcegos são os hospedeiros naturais. Eles são imunes à doença e raramente infetam humanos diretamente. Os surtos conduzem, geralmente, a um indivíduo que mexeu em carcaças de animais infetados. Existem também algumas aldeias africanas em que se costumam comer morcegos e cérebros de macacos, o que pode levar a uma infeção.

Mas, são teorias, pois apesar dos inúmeros esforços para se identificar o reservatório natural do Ébola, este ainda não foi verdadeiramente encontrado. As suas origens permanecem ainda um mistério.

Este vírus ainda não tem cura. A taxa de sobrevivência é baixa, pelo que para se controlar e evitar um contágio em larga escala, o melhor a fazer é agir-se rapidamente, tentando conter a sua propagação.

Roupa de proteção a secar, após ter sido utilizada nos centros de tratamento. foto: ZOOM DOSSO/AFP/Getty Images
Roupa de proteção a secar, após ter sido usada.foto: ZOOM DOSSO/AFP/Getty Images

Identificar o início do surto é essencial, assim como vigiar potenciais infetados e isolar a zona afetada. O tempo é essencial. Quanto mais rápido se começarem a tomar diligências, mais possibilidades existirão de se travar o avanço do Ébola.

O problema é que, quando um vírus não tem cura e os seus sintomas iniciais podem ser confundidos, todos os esforços podem revelar-se insuficientes.

Este surto, que está a ocorrer enquanto escrevo este artigo, já foi declarado como estando fora de controlo, uma vez que a sua propagação está a ser mais rápida do que os esforços em ser travado.

Deverei estar preocupado?

Não é assim tão difícil para um vírus como o Ébola se propagar. O Mundo atual está todo ligado. Um homem pode ser infetado em África, apanhar um avião para a Europa e, no processo, infetar mais alguém.

Esse alguém pode viajar para diversos países e infetar mais pessoas. A bola de neve pode vir a ser catastrófica.

Por isso, é de extrema importância que se consiga conter a sua propagação. Caso o vírus saia de África, podemos vir a ter um problema gravíssimo entre mãos.

Um paciente com Ébola a ser devidamente acompanhado. foto: Samaritan's Purse/AP
Um paciente com Ébola a ser devidamente acompanhado. foto: Samaritan’s Purse/AP

Até ao dia de hoje, médicos e cientistas corajosos conseguiram sempre identificar e parar estes surtos malditos, mas está dentro das probabilidades, este (ou um parente próximo) assassino silencioso e letal, conseguir arranjar maneira de chegar a vários locais do mundo.

Se isso acontecer, ou se já está a acontecer, resta-nos esperar pelo melhor. Lutar contra um ser minúsculo que devora as nossas entranhas, será uma das maiores dificuldades da civilização.

Já aconteceu no passado com a terrível Peste Negra, em que morreram mais de 75 milhões de pessoas (um terço da população europeia). Pode vir a acontecer outra vez.

Não é, também, de admirar que se tema que vírus como o Ébola, sejam usados como arma biológica.

Médicos carregam o corpo de uma vítima mortal do vírus. foto: Seyllou/AFP/Getty Images
Médicos carregam o corpo de uma vítima do vírus. foto: Seyllou/AFP/Getty Images

Deixando de lado esta negatividade e um hipotético futuro sombrio, resta dizer que não é tão fácil como parece ficar-se infetado. Só contactando fluídos corporais durante algum tempo e o mundo moderno sabe os perigos deste vírus e como combatê-lo (ou amenizar os seus efeitos nefastos).

As complicações que têm surgido têm sido, principalmente, devido a problemas facilmente evitáveis. Desde a relutância das pessoas nos locais afetados em África em seguirem as recomendações de segurança, passando pela utilização de equipamento desadequado e terminando em crenças absurdas em bruxarias.

À medida que o cenário se foi agravando, a ajuda internacional começou a perceber que teria que atuar de forma mais assertiva. E ficar mais alerta. A ajuda é muito importante.

Este surto tem revelado-se mais preocupante que os anteriores, mas penso que não será caso para alarmismos. Um cenário como, por exemplo, o do filme Contágio, será uma possibilidade remota. É, perfeitamente possível, conter a propagação e evitar males maiores.

A resposta para que não se percam mais vidas, é ser agressivo agora. Isolar, identificar, acompanhar e atuar rapidamente na origem.

Autor: Ricardo JM Vieira

Tenho a mania das artes e acho que o sentido de humor é das melhores coisas inventadas pela humanidade. Eu, pelo menos, gostava de ter.

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