Arigatou gozaimasu, Hayao Miyazaki

Hayao Miyazaki

Hayao Miyazaki, aunciou recentemente o fim da sua carreira cinematográfica. Foram mais de 4 décadas a cativar e a inspirar pessoas. Kaze tachinu (The Wind Rises), filme que já estreou em alguns países, será o seu último. Deixará, certamente, saudades.

A minha primeira experiência com Miyazaki foi com o filme Mononoke-hime (A Princesa Mononoke) onde, desde logo, fiquei fã. Fiquei com tão boa impressão do filme, que investiguei a sua filmografia.

Desde então, tenho-me deliciado com obras apenas ao alcance dos melhores artistas.

Preocupado com o rumo da sociedade

O estilo das suas animações é facilmente reconhecível. Miyazaki, geralmente, emprega nas suas obras, preocupação com temas atuais, como a constante destruição dos ambientes naturais do planeta, pela sociedade moderna segundo ele, vazia e superficial.

Aliás, a sua preocupação chega a ser algo sombria e apocalíptica.

A vida moderna é tão ténue, superficial e falsa. Eu anseio por uma época em que as companhias vão á falência, o Japão fique pobre e os pastos verdes tomem conta de tudo.

Para além da preocupação com o ambiente, Miyazaki parece ter especial gosto por incluir personagens fortes femininas, fazer propaganda contra a guerra, destacar o papel do amor na solução de problemas e dar ênfase ás crianças e á infância.

Hayao Miyazaki 2

A infância, para Miyazaki, é um período mágico em que o tempo podia parar.

É quando tu és protegido pelos teus pais e desconheces os problemas que te rodeiam.

Aparentemente, Miyazaki parece apontar para algo que se perde durante o crescimento das pessoas. A sociedade moderna atual, não lhe inspira muita confiança, na medida em que valores outrora talvez mais praticados, começam a ficar esquecidos.

Á medida que os humanos vão ficando mais fortes, penso que vão ficando mais arrogantes, perdendo a mágoa que implica o não termos alternativa. Penso que, na essência da civilização humana, temos o desejo de ficarmos ricos, sem limites, tirando a vida a outras criaturas.

Existem outros aspetos recorrentes da sua filmografia, como o uso constante da água, de objetos voadores e da ausência da distinção clara entre o bem e o mal.

Hayao Miyazaki 3

A heroína é atirada para um lugar onde o bem e o mal coabitam juntos. Ela escapa, não por ter destruído o mal, mas porque aprendeu a sobreviver, disse aquando da estreia do filme Sen to Chihiro no kamikakushi (A Viagem de Chihiro).

A magia da animação tradicional

Apesar de normalmente utilizar animação tradicional nos seus trabalhos, houve uma altura na sua carreira que decidiu usar a ajuda dos computadores. O facilitismo das novas tecnologias, das quais Miyazaki é critico – especialmente com o crescente uso por parte das crianças – foi posto completamente de lado, antes da produção de um dos seus filmes, Gake no ue no Ponyo (Ponyo á Beira-Mar).

Desenhar á mão no papel, é o fundamental da animação, disse na altura.

Esse seu fascínio pela animação tradicional, aliado ao seu perfeccionismo em criar mundos fantásticos, cheios de cor e detalhe, tem conquistado o carinho e admiração de muita gente.

Não é de estranhar que tenha sido comparado a “monstros sagrados”, como Walt Disney.

No nosso trabalho, a questão é o quão tu absorves dos outros. Então, para mim, a criatividade é na verdade, como uma corrida de estafetas. Enquanto crianças, somos agraciados com uma batuta. Em vez de a passar para a próxima geração, primeiro temos que a dominar e torná-la nossa.

Mais de duas dezenas de filmes depois, Miyazaki decidiu que tinha chegado a altura de deixar de contar histórias. Décadas depois do seu início, não mais poderemos entra nos seus mundos de fantasia e de esperança no grande ecrã.

Fica a tristeza em saber que não mais teremos o seu contributo para a 7º arte, mas fica um legado riquíssimo que vale a pena explorar e a alegria em saber que outras obras em papel poderão surgir.

Nascer, significa ficar obrigado a escolher uma era, um lugar, uma vida. Para se existir aqui e agora, significa perder-se a possibilidade de se ser outros incontáveis eus. Uma vez nascidos, não há volta a dar. E eu acho que é exatamente por isso, que o mundo dos desenhos animados representa tão fortemente as nossas esperanças e ânsias. Eles ilustram um mundo de possibilidades perdidas por nós.

Autor: Ricardo JM Vieira

Tenho a mania das artes e acho que o sentido de humor é das melhores coisas inventadas pela humanidade. Eu, pelo menos, gostava de ter.

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