Diaspora*, um sopro de liberdade

O que está na moda na web, atualmente, é ter um perfil no facebook. Toda a gente tem um, até aquelas pessoas que não se interessam minimamente por computadores. Mas lá está, a malta passa a palavra «dás-me o teu facebook», ou, «tu não tens facebook?» e quem não tem, tenta integrar-se o mais rapidamente. Ser “excluído” é que não!

O facebook não é a “primeira moda” em redes sociais, e não será, com certeza, a última. Muitos não se lembrarão, mas outros tantos sim, do Hi5 ou do Myspace. Não é que tenham acabado, pois ainda é possível criar conta nestes serviços, mas aqui há uns anos eram sensação e agora não passam de redes em vias de extinção.

Como não se souberam adaptar a novos tempos, foram perdendo fulgor e o facebook, que já existe há vários anos e não 1 ou 2, como muitos pensam, foi ganhando. Ganhou tanto fulgor que nos últimos 2 anos, especialmente neste último, “atropelou” tudo o que era tentativa de futura rede social.

O Google que o diga. O Buzz e o Wave foram fracassos e tentativas, na verdadeira ascensão da palavra, ridículas para travar a ascensão meteórica do facebook na preferência dos internautas.

Pois, é que o Google nunca se interessou muito por redes sociais, e só começou a investir forte quando a rede de Zuckeberg começou a ter mais tráfego gerado que o próprio motor de busca.

E toda a gente conhece o Google! Toda a gente utiliza o Google para pesquisar o que quer que seja. Como raio, poderia ser ultrapassado? Mas o impensável aconteceu. O facebook tornou-se no site mais visitado da web.

O facebook conta atualmente com mais de 800 milhões de utilizador e lidera, com um enorme avanço, a preferência do pessoal. O Google, parece ser o único, atualmente, a ter capacidade em fazer frente a tamanho monstro digital.

E, na verdade, a malta de Mountain View parece ter acertado. O Google + é bastante interessante, e tem cativado bastante. Não estou bem por dentro dos números da rede social, mas penso que já ultrapassou a barreira dos 50 milhões. Ainda está longe, muito longe do facebook, mas este número foi atingido muito rapidamente. E ainda poderá crescer mais.

No entanto, saiu a público muito recentemente que foi apenas um boom de curiosidade, pois a percentagem de utilizadores ativos no Google + é muito baixa.

O facebook parece estar demasiado enraizado na sociedade. Para quê mudar, se os nossos “amigos” estão todos lá?

A maioria das pessoas não sabe, mas o facebook tem sido muito criticado pela forma como utiliza os dados dos utilizadores. Desde utilizá-los para vender a companhias publicitárias e a empresas de segurança; desde o fato de vigiar os seus utilizadores a toda a hora e a todo o momento, mesmo que façam logout da sessão; desde o facto de o próprio Zuckeberg ter dito «They trust me, dumb fucks!»; etc, etc.

Não vamos ser ingénuos. o facebook, assim como outras grandes companhias, precisam de fazer dinheiro. Enquanto algumas vendem produtos, o facebook vende informação dos seus utilizadores. Sim, nós, os utilizadores da rede social, somos os produtos que geram lucro. Muito lucro, aliás. Daí o facebook não facilitar muito, por exemplo, eliminar uma conta.

Aqueles que partilham tudo e mais alguma coisa, são verdadeiras pérolas. E Zuckeberg não quer que se saiba como e para que fins, vai utilizar toda essa informação. Sim, pois a informação não é só de quem a publica. Ela serve para outros propósitos, ás vezes pouco éticos.

E com a nova remodelação que irá ocorrer brevemente, essas pérolas irão tornar-se diamantes, pois a quantidade de informação que poderão colocar na rede será bem maior. Logo surgirão mais companhias interessadas em saber como chegar a esses utilizadores. Mais dinheiro para Zuckberg, mais publicidade direcionada para os utilizadores.

Se ainda não perceberam como raio após terem visitado sites de, por exemplo, vendas de câmaras fotográficas, surgir no vosso perfil anúncios a câmaras fotográficas, sugiro que se comecem a informar melhor.

O problema, ou não, é que a maioria das pessoas não quer saber de privacidade ou falhas de segurança. E por isso mesmo, a rede vai crescendo cada vez mais e ficando cada vez mais “assustadora”.

Aqui há pouco tempo, um utilizador decidiu, ao abrigo de uma lei europeia, pedir toda a sua informação partilhada na rede. Semanas depois, chegou a casa um ficheiro pdf com centenas de páginas contendo mais informação que ele estaria á espera. Conversas que teve no chat, sites visitados, mensagens apagadas do perfil, fotografias que apagou; tudo fica guardado nos servidores do facebook! E tudo poderá ser utilizado para gerar dinheiro e, eventualmente, contra nós. Se isto não é preocupante, não sei o que mais será.

No meio de tanta preocupação com a privacidade, 4 jovens estudantes da universidade de Nova Iorque surgiram com uma nova proposta.

Seria possível criar uma rede social, descentralizada, em que as pessoas fossem utilizadas efetivamente como pessoas (sem servir para gerar dinheiro), e em que a informação fosse de quem a partilhasse?

Não haveriam grandes companhias envolvidas, não haveria falsa sensação de segurança e privacidade. A rede seria transparente e livre.

Maxwell, Daniel, Raphael e Ilya são os 4 jovens fundadores da Diaspora*

De proposta um bocado utópica, rapidamente passou a ser algo atingível e concretizável. Os 10 000 dólares que pediram em donativos para começar a trabalhar, tornaram-se em 200 000 – como curiosidade Zuckeberg também contribuiu – e o projeto avançou.

Assim nasceu a Diaspora*. A rede social que prometia ser a nova sensação.

Um ano depois, a rede ainda se encontra em fase alpha, mas já é possível experimentar. O estado alpha até é um bocado enganador, uma vez que tenho perfil na rede social e já me sinto satisfeito com as possibilidades. Contudo, ainda não tem tantas funcionalidades como, por exemplo, o facebook têm.

Antes de existir o Google+ e o facebook atual, a Diaspora* destacava-se. O conceito de círculos/listas e hashtags existentes no facebook e Google+, são cópias de inovações da rede. Raios, até o visual do Google+ é claramente uma cópia do utilizado na Diaspora*. Muitos poderão dizer o contrário, mas para quem está por dentro do assunto desde o início, sabe que a Diaspora* surgiu primeiro.

Não é que isso seja mau, até os desenvolvedores disseram que se sentiram lisonjeados por companhias tão grandes se terem inspirado num projeto bastante humilde, mas merece que fique registado.

A Diaspora* é completamente de código-aberto. Quem quiser pode fazer o download do código, modificá-lo e instalá-lo em sua casa. Sim, quem quiser pode montar o seu próprio servidor no conforto do lar. Essa é uma das grandes vantagens da Diaspora*. O facto de ser descentralizada e podermos, mesmo assim comunicar entre os diferentes servidores. No futuro, até poderemos trocar de servidor, ou pod, mantendo todos os dados.

Exemplo de um perfil na Diaspora*

O funcionamento é parecido com o funcionamento do protocolo bittorrent. Quem saca da net (aham, 95% das pessoas), saberá que os ficheiros que está a sacar estão a ser partilhados por várias pessoas. Essas pessoas são chamadas de sementes. Um pod será uma semente. E não interessa o pod em que estejamos. Todos estarão conectados entre si!

Na Diaspora*, por exemplo, ninguém nos vai chatear se utilizarmos um pseudónimo, ou se criarmos um perfil chamado “batatas cozidas”. A rede é livre, é nossa.

Sem estar ligada a qualquer companhia, os nossos dados não serão monitorizados, nem utilizados para gerar lucro. É algo de sensacional.

Ainda em estágio alpha, a rede já conta com mais de 200 000 utilizadores no pod principal, o joindiaspora. E convém dizer que esse pod só está aberto para quem tiver um convite. No entanto, para quem quiser experimentar, pode ir aqui e escolher um das dezenas de pods disponíveis. Com tantos pods, será seguro dizer que a rede terá, no mínimo 400 000 utilizadores.

Provavelmente não conseguirá destronar o facebook e nem será bem esse o objetivo. Uma coisa é certa, a Diaspora* é um sopro rarírissmo de liberdade e transparência na Internet. E só por isso mesmo merece que vingue. Tem todo o meu apoio.

ps: um dos fundadores, Ilya Zhitomirskiy, faleceu muito recentemente. Era bastante jovem, 21 anos, e isso é sempre trágico. Certamente que a Diaspora*, se tornará num legado importantíssimo. As minhas palavras de reconhecimento e coragem por ter arriscado a tornar a Internet um bocadinho mais livre.

6 pensamentos em “Diaspora*, um sopro de liberdade

  1. Pingback: Facebook deixa a concorrência a milhas! | 35mm"

  2. Pingback: Alternativas open source aos grandes da web | 35mm

  3. Boa história que merece ser lida!

    De ressalvar apenas que o hi5 está em forte na índia, que não uma rede na falência.

    E, por fim, gostei mais de conhecer o funcionamento do Diaspora, sabia da sua existência e já o tinha visto a funcionar, mas desconhecia que funcionava dessa maneira!

    Abraço

    • Obrigado, Cláudio. :)

      Não sabia que o Hi5 estava forte na Índia. Mesmo assim, penso que já foi mais forte do que é atualmente (apesar de saber que a Índia tem milhões de potenciais utilizadores).

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